As novas regras ortográficas também valem para o braile
O sistema braile de leitura e escrita para cegos foi criado em 1837 por Louis Braille, que se inspirou no sistema de Barbier, utilizado para a comunicação noturna entre os soldados do exército francês. Baseado na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas, o sistema braile permite a formação de 63 caracteres diferentes, que representam as letras do alfabeto, os números, a simbologia aritmética, a musicografia e a informática. Esse sistema se adapta à leitura tátil, pois os pontos em relevos devem obedecer a medidas-padrão, e a dimensão da cela braile (assim é chamado o conjunto dos seis pontos) deve corresponder à unidade de percepção da ponta dos dedos. É simplesmente mágico! O cego sente na ponta dos dedos o mesmo que sentimos quando lemos qualquer texto. Ou seja, o tato, por meio dos dedos, envia informações para o cérebro de uma pessoa cega e ela consegue imaginar tudo o que o vidente percebe com a visão. Essa foi uma grande descoberta, pois o cego adquire conhecimento também por meio do tato. E é o braile que lhe dá esse suporte. Por isso, o cego que lê em braile tem muito mais chances de ser um cidadão ativo na sociedade, ajudando a construir o seu meio, do que aquele que não lê. Um cego analfabeto em braile tem muito mais limitações do que aquele que não é. Ser alfabetizado nesse sistema transforma o cego em um indivíduo mais autônomo, e essa autonomia, consequentemente, dá-lhe mais liberdade. A escrita em braile é uma transcrição da escrita comum. Isso quer dizer que todas as letras que integram o alfabeto comum têm equivalência no sistema de escrita para cegos. Assim sendo, quando a escrita comum é modificada, a do cego também tem de ser. Nesse momento, a escrita comum está passando por um momento de transição, por causa do novo Acordo Ortográfico, que passou a vigorar em janeiro de 2009. Aí começam os ajustes! O braile sofre adaptações de acordo com cada língua. No espanhol, por exemplo, existe a letra “ñ”, inexistente no português. Para essa letra, há uma letra equivalente no braile. Caso ela se modifique na escrita comum é necessário modificá-la também no sistema de escrita para os cegos. É esse o caso das alterações feitas pelo novo Acordo Ortográfico. Assim como para os videntes, essas codificações na língua portuguesa também podem causar um pouco de transtorno para os cegos. Nossos olhos eram “treinados” para ler a palavra ideia, por exemplo, com acento (idéia) e hoje se ressentem ao enxergá-la sem ele. O cego percebe essa alteração por causa da mudança de lugar dos pontinhos salientes nessa palavra, que ele estava acostumado a sentir de outra forma. O mesmo ocorre para o hífen e para os ditongos abertos, que agora não são mais acentuados. A quantidade de caracteres se modifica, causando um desconforto na leitura em braile. Tanto os cegos como os videntes necessitam adaptar-se à nova ortografia. Para o cego, qualquer mudança física é algo que pode lhe causar um pouco de desconforto, por causa da falta de visão. Entretanto, com algumas adaptações, ele se acostumará às novas regras sem grandes transtornos.
Kátia Nascimento
katia@muitasletras.com.br
Mestre em Linguística Aplicada
Muitas Letras – Assessoria Linguística e Espaço Cultural
Tags: braille - reforma otográfica - cego
You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.