Danado de preconceito!

“Academia critica livro do MEC que defende erros de português”. (http://migre.me/4zs9C)

Desde que saiu essa matéria no jornal, as pessoas estão me perguntando: Como pode um livro ter erros de concordância? Como é isso de preconceito linguístico? O que você acha? Era só o que faltava você concordar com eles!

Só um pouquinho! É preciso refletir sobre o assunto. Na verdade ninguém defende erro nenhum. A pergunta é outra: como as pessoas falam coloquialmente? Elas falam o que está escrito nas gramáticas normativas? Claro que não, é só observar. As pessoas falam suas variações linguísticas, que aprenderam em casa, que aprenderam na cidade ou região onde vivem. O fato é, o que elas aprenderam é o que está nessas gramáticas? Não. Uma criança aprende a falar sem saber gramática e fala “gramaticalmente” correto. Ora, quem nasceu primeiro, a fala ou a gramática normativa? Simples, as pessoas, primeiro, falaram, para depois vir alguém e resolver teorizar sobre sua fala. Ou seja, alguém criou a gramática normativa depois de tanto ouvir a fala do sujeito. O gramático decodificou a linguagem que já existia. E essa linguagem evolui. Os cientistas da linguagem apenas constatam essa evolução e têm, por obrigação, divulgar isso.

Assim, a ciência comprova, por meio de pesquisas, que há muita variação linguística no Brasil, milhares. Temos variações de todos os tipos. Há muitos dialetos, que é a linguagem que uma determinada comunidade fala. E, além disso, há nosso idioleto, que é a linguagem individual. Ninguém fala como nós falamos. Como seres únicos que somos, ninguém fala igual a nós.

Veja, a diversidade linguística, como qualquer outra diversidade, é tão grande que não seria justo dizer que porque alguém diz poRta (com o “r” retroflexo) está falando “errado”. Sim, por que é isso que as pessoas dizem. E dizem mais, se a pessoa não fala “direito”, ela provavelmente não pensa “direito”. O que é uma atrocidade.

É isso mesmo! Tudo isso um professor de Linguística ouve de seus alunos quando começam o Curso de Letras. É um baque para eles ouvirem que todas as linguagens são certas se o indivíduo se fizer entender. Pois bem, linguagem errada é aquela em que o falante não se faz entender. De acordo com Chomsky nós temos uma gramática internalizada que é igual a de todas as outras pessoas. Não diríamos nunca, nem uma pessoa analfabeta: O caminho menino pelo ia. Sempre diremos: O menino ia pelo caminho. Ou seja, falamos sempre dentro da estrutura sujeito-verbo-predicado e isso é uma construção que está internalizada. Mesmo se dissermos: Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado, como é o exemplo da matéria, a estrutura continua sendo a mesma. O que ocorre, nesse caso, é que a marca da pluralidade cai sobre o artigo OS e, por meio dele, entendemos que são “os livros”. A falta de concordância não muda significado, consequentemente, o falante se fez entender.

Então, com tanta variação linguística, qual é o modo certo de falar? Não há. O que há é o modo adequado de falar. Marcos Bagno, grande linguista brasileiro, afirma, em seu livro: “Preconceito Linguístico, o que é, como se faz”, que a linguagem é como a roupa, não vamos de terno e gravata à praia e nem vamos de biquíni ao trabalho.

Com tanta variação, é claro, tinha que nascer o preconceito linguístico. Não seria mais simples um país com tantas diferenças não ter preconceitos? Certos preconceitos no Brasil chegam a ser ridículos. Preconceito linguístico num país vasto como o nosso, com tantas etnias, é mesmo ridículo. E ainda há pessoas que dizem que não têm preconceitos. Infelizmente têm! E muito!

Nós temos algumas crenças que nos levam ao preconceito. Marcos Bagno as chamou de mitos e os enumerou num total de 8. Um desses mitos é o que diz: “Brasileiro não sabe português, só em Portugal se fala bem português”. Esse mito me parece um dos mais importantes, pois retrata a baixa-estima do brasileiro. Tudo que vem de fora é melhor.

Veja, nós não falamos português de Portugal. Nosso português é brasileiro. As variações que existem aqui, não são as mesmas que existem lá. Nem poderiam ser, pois nossa língua sofre influência dos povos que aqui chegaram e dos indígenas que já estavam aqui quando vieram os portugueses. Cada país tem as suas origens e essas origens é que vão formar a sua língua.

Outro mito: O certo é falar assim porque se escreve assim. Claro que não. A língua falada é uma e a língua escrita é outra. Se o brasileiro tem tanta dificuldade para escrever é porque os obrigam a escrever o que não falam, causando, além de um grande constrangimento, uma confusão que resulta na desistência dessa habilidade, infelizmente.

Nossas escolas deveriam valorizar a riqueza da variação linguística de nossos alunos e não desmotivá-los e insistir com gramáticas descontextualizadas que vão levar, apenas, a um estudo estruturalista, fora de época. Se perguntarmos aos nossos alunos como fica o verbo partir na 1ª pessoa do singular, do pretérito mais-que-perfeito, provavelmente, mesmo aqueles que fizeram 12 anos de escola, não saberão. E por quê? Por que não foi significativo para eles. Ausubel afirma que o aprendizado só acontece quando for significativo para o aluno.

Saber Língua Portuguesa é saber entender a própria língua, não necessariamente, saber a gramática normativa. Para quê um professor de Língua Portuguesa dá aulas de Língua Portuguesa a falante nativo da Língua Portuguesa? Para ensiná-lo a pensar, raciocinar em sua própria língua. E como se faz isso? Levando assuntos relevantes para serem discutidos em aula. Somente na escola os alunos terão a chance de discutir aspectos sociais importantes para seu desenvolvimento como cidadão. E isso quem deve fazer é seu professor de Língua Portuguesa. Isso sim é importante. A gramática normativa vai ser ensinada, caso seja necessário, quando estiver fazendo reflexões e escrevendo sobre os assuntos discutidos em sala de aula. Mas, não pode, de maneira nenhuma, ser o objetivo principal da aula.

Felizmente, sabemos que há professores que trabalham dessa forma, com ótimos resultados. Se são ótimos resultados é porque a metodologia funciona. Mas, há que se ter vontade de mudar, empenho em estudar os vários métodos e humildade para perceber que há falhas no próprio trabalho e na educação, de modo geral. E essas falhas não são porque alguém fala dessa ou daquela forma. Quando ouvimos, como eu ouvi, aluno de faculdade dizer que ele não quer escrever, pois sabe que seu texto é o pior da aula, por que sempre ouviu isso de seus professores, realmente, alguma coisa está errada.

“A escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala”, afirma o texto dos PCNs”. (http://migre.me/4zs9C)

Deixo aqui a reflexão aos professores: se sabemos, como de fato sabemos, português, para quê ensinar Língua Portuguesa a falantes nativos dessa língua? Se deve ensinar a língua ou sobre a língua?

Até a próxima!

Kátia Nascimento
katia@muitasletras.com.br
Mestre em Linguística Aplicada
Muitas Letras – Assessoria Linguística e Espaço Cultural

Leia esse texto também em Sala dos Professores: http://blog.horario.com.br/index.php/2011/05/danado-de-preconceito/

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