Ser roteirista
Rafael Cardoso
Sonho de muito escritor é escrever roteiro para TV, cinema e rádio. Como anda esse mercado no Brasil? O que deve fazer um escritor para se tornar roteirista? Como se dá esse processo? A Muitas Letras traz o roteirista profissional, curitibano, Rafael Cardoso para falar sobre isso.
1) Como é sua vida como roteirista?
Pra quem acha que a vida de roteirista é sensacional, está completamente certo! Ser roteirista é deter o poder de criar e construir a realidade que desejar, e isso é permitido com a organização, a disciplina e a ampliação constante do conhecimento técnico. A vida de roteirista é abdicar de uma série de luxos, porque o roteirista, pra cumprir prazo, precisa de ajuda da família, dos amigos, dos contratantes, dos envolvidos direta ou indiretamente. Roteirista não tem fim de semana ou livro ponto pra assinar, mas tem responsabilidade sobre o que escreve e os resultados que este trabalho acarreta.
2) É o roteirista quem determina o programa a ser exibido?
O roteirista é aquele que organiza e desenha a estratégia para alcançar o resultado. Roteiro não é responsabilidade de um ou dois. Vale lembrar que o roteiro é um texto a ser trabalhado por um volume bastante considerável de profissionais. Desde o produtor até o maquiador. Atores, diretores, produtores, investidores, e uma gama de outros –ores fazem o material ser delineado a sua finalidade. Mas o roteirista é aquele que detém da palavra mais importante, por fazer escolhas técnicas cadenciando o ritmo, a forma, a técnica adequada pra se contar determinada história. O roteirista não é o dono de um texto literal, porque o roteiro não é literal. O roteiro é visual, produzido para ser visto e ouvido, portanto, é mais do que a construção de uma metáfora, ou mesmo um verso solto numa folha de papel. Roteiro é a imagem em palavra. E quem deve entender isso é o roteirista.
3) O roteiro se adapta as tendências ou as tendências são tendências por causa dos roteiros?
O roteiro não obedece a uma tendência. Ele é padronizado para que muitas pessoas compreendam o que ali está se exigindo. Se a cena for de uma forma, o roteiro precisa deixar claro como água cristalina para que a produção, o diretor, o produtor entenda qual a finalidade daquela sequência. Claro que o roteiro também é um texto inserido dentro de uma cultura proveniente de uma determinada comunidade. Mas independente do local, do ambiente, se eu ler um roteiro escrito em indiano para se produzir em Bollywood, e depois ler um roteiro em inglês para se produzir em Hollywood, a dinâmica do roteiro precisa ser entendida plenamente. Roteiro não obedece a tendências, ele usa as tendências através da imagem, da cena, do movimento cênico em geral.
4) Há programas de TV que são um verdadeiro lixo em qualidade. Já que ela está fazendo 60 anos, não seria necessário transformá-la?
É preciso entender que a televisão é o reflexo da comunidade. Houve o tempo que eu entendia que era a TV o grande problema de qualidade cultural. A TV, aferida diariamente por audiência, mostra pra gente que quanto mais você agrega qualidade no discurso, mais você está afunilando a audiência. Um BBB, por exemplo, é um programa sem roteiro, mas tem estrutura narrativa em sua edição. É extremamente veiculado ao grande público nacional, enquanto o programa Ação, exibido às sete da manhã do sábado, na Globo, tem uma audiência pífia, mas uma qualidade de discurso sensacional. Outro exemplo disso é o programa Zorra Total exibido no sábado à noite, pela Globo, pobre de qualidade cênica, rico de ingenuidade, erotismo e alienação, mas dá um resultado tão grande de audiência, que está há anos na grade de programação. No entanto, o CQC que é um programa ácido e sarcástico, com o vínculo do jornalismo verdade, mas tem um grande discurso de crueldade, acarreta fraca audiência. O próprio programa FUTURA, totalmente voltado para a cultura e para a qualificação de seu expectador, nunca conseguiu ir além daquilo que há anos já conquistou de espaço no mercado audiovisual. A televisão não é o problema, mas o povo que assiste que precisa ser mais qualificado. Mas a gente também precisa entender que o Brasil tem os piores índices de educação da América Latina, perdendo para países como o Chile e a Argentina em qualificação de ensino. A TV quer audiência, quem precisa exigir qualificação é quem está assistindo e não o contrário.
5) Como pode ser feita essa modificação? A partir do roteirista?
O roteirista pode usar a cultura do povo, mas inserir discursos sutis provocativos, como aconteceu com o Casseta & Planeta no início da carreira de programa de televisão. Eles conseguiam ser tão geniais que até a própria Globo era criticada por eles e nem havia entendimento disso. Através da técnica que o roteirista pode criar múltiplas significações a partir dos elementos que ele coloca na tela através das palavras. Mas não se engane, assim como a televisão, o roteirista precisa ter um discurso que atenda às necessidades do contratante, afinal de contas, todos nós somos exigidos de resultados em nosso cotidiano quando entramos para o universo profissional. Eu já tentei inventar a roda dentro da TV e tive que amargar cobranças terríveis, porque os índices de audiência foram abaixo do esperado. Hoje entendo que posso dar minha contribuição, mas não posso tornar isso o objetivo principal.
6) Você percebe essa necessidade, já que a televisão é formadora de opinião?
A TV assume esse papel político porque o povo não tem uma referência educacional pra evitar isso. Enquanto o povo tiver dificuldades em suas necessidades mais fundamentais, como escolher os representantes políticos, privilegiar o jeitinho brasileiro como valor moral volátil, enquanto a gente tiver um país violento e corrupto, a gente tem que entender que a TV é apenas o reflexo. A mudança não é pela TV, mas pelo povo. A queda de Fernando Collor no movimento dos “caras pintadas” foi em caráter popular. A TV entrou depois nesse movimento e ajudou a consolidar, mas quem tinha interesse nesse assunto era o povo. A TV queria resultado de audiência. Se a TV entender que uma palestra filosófica é mais interessante que a cobertura do desfile das escolas de samba, ela será transmitida, independente da vontade do dono da emissora, do diretor do programa ou do roteirista. Discutir TV está além do papel do roteirista, mas nada impede ele de contribuir positivamente para isso.
7) Você é roteirista profissional. O que tem a dizer para quem deseja ser roteirista?
Já vi roteiristas experientes dizerem que roteirista é uma profissão para velhos. Afinal de contas, pra dominar as técnicas do roteiro, você precisa de uma considerável bagagem no universo da escrita. Essa experiência prepara você inclusive pra lidar com os erros, porque mesmo sendo um grande e consolidado roteirista, não é sempre que se acerta. M. Night Shyamalan, roteirista e diretor do filme O sexto sentido acertou muito com esta obra, já o filme Fim dos Tempos, foi extremamente criticado. Nesse processo de estudo, o roteirista precisa compreender que o roteiro é um texto que será exigido em muitos aspectos de clareza textual, isso só se desenvolve com estudo constante do texto, leituras, discussões, debates, experiência em outras modalidades, posturas, e compreensão de troca de experiências. Eu comecei roteirizando peças de teatro, depois compreendi que precisava estudar e compreender as técnicas… Fiz, portanto, especialização em Dramaturgia e Teatro, mesmo assim, ainda precisava entender mais… E por muitas vezes trabalhei de graça só com o objetivo de adquirir a experiência. Fui para a televisão depois de estudar uma grande série de programas americanos, desde talk shows até seriados e novelas americanas. Fazia comparações com os programas brasileiros. Assisti a muitos filmes americanos, franceses, ingleses e espanhóis, além dos nossos brasileiros. Busquei enxergar em cada obra as especificações técnicas e debati muito com outros colegas de trabalho, diretores e produtores sobre a dinâmica da narrativa. Então o que eu digo pra quem quer virar roteirista: estude a leitura de textos, estude a criação de textos e estude a dinâmica dessas técnicas na prática, seja em oficinas ou mesas de debate. Pra vocês entenderem como é isso. Uma simples conversa pode ser um ato de estudo. Aconteceu comigo. Num dos shows de stand up comedy, que Cláudio Torres Gonzaga fez em Curitiba, foi um momento de aprendizado que tive quando depois desse show, ele veio conversar comigo despretensiosamente em seu momento de descanso. Ali ele me deu informações de sua experiência que compreendi e levo até hoje como elemento de crítica para elaborar ou valorar outros trabalhos, porque compreendi que ele tem muito mais bagagem e experiência do que eu na televisão.
8) Quem quer ser roteirista profissional como deve proceder? Há cursos de roteiros em Curitiba?
Cursos pontuais para roteiristas são poucos. Os cursos de direção de cinema agregam um pouco esse conhecimento. Mas não é o correto, uma vez que o roteiro precisa de uma quantidade de horas superior do que a ofertada nestes cursos de direção. O correto seria ter um curso específico para roteiro, porque o domínio do texto é um processo de especialização contínua. Não dá pra você falar pra pessoa fazer determinada coisa que ela vai sempre ter sucesso. Curitiba é um celeiro de roteiristas que ainda não se descobriu, e o Brasil hoje em dia é muito pobre dessa mão de obra especializada. Você pode conferir isso vendo o número de diretores que precisam escrever seus roteiros pra poder rodar a ideia em cinema ou mesmo televisão. Poucos são aqueles que têm hoje condições de atender às necessidades que o mercado audiovisual tem.
9) Fale da Boa da Pan?
O Boa da Pan foi uma oportunidade que estava latente há anos. O formato do programa nasceu de um jeito, mas como todo programa, ele sofreu suas alterações de acordo com a dinâmica e com as limitações técnicas presentes nessa jornada. O Boa da Pan é um exercício constante de capacidade de comunicação, porque você precisa fazer entretenimento em rádio, onde o único recurso disponível é o som. Não existe a imagem pra fazer melhor o resultado a ser atingido. Mas eu me espelho muito em Dias Gomes, que deixou claro em entrevistas a gratidão que tinha por conta do rádio. Dias Gomes dizia que se ele conseguiu ser claro em sua rádio-novela, então ele conseguia ser claro no audiovisual. Claro que o planejamento diário é fundamental, além das escolhas de pautas, entrevistados, formatação dos quadros produzidos de humor e uma série de outras projeções técnicas. Mas o Boa da Pan é hoje um produto de sucesso porque conquistou um espaço privilegiado dentro de uma rádio de grande importância para Curitiba. Hoje temos audiência aferida em todo o mundo com a disponibilização da internet pra transmitir o programa. Isso quer dizer que podemos entender o roteiro do programa fora das amarras culturais do ambiente. Quando um roteiro consegue isso, é porque ele tem o seu valor técnico atingido. Glauber Gorski, meu grande amigo e companheiro de estudo, me disse uma vez que o roteiro de sucesso é aquele que pode ser produzido com um milhão de reais e também com um real. A qualidade da produção não pode suprir a qualidade do roteiro. O Boa da Pan tem essa diretriz como norteadora de qualidade. É importante ressaltar que os gostos também determinam este sucesso, por isso as técnicas são fundamentais pra minimizar esses impactos de escolhas. Fazer humor é mais desafiador do que qualquer outro gênero, porque se você não conseguir a graça, ela fica ridícula e morre.
10) Você escreveu também para Casos e Causos? Como foi essa experiência?
Foi no Casos e Causos que eu pude realmente crescer. Ali eu tive a oportunidade de me integrar com profissionais de renome nacional e também fazer amigos que se tornaram fundamentais dentro da minha formação profissional. O Casos e Causos foi o ambiente que errei e que tive a oportunidade de acertar. Ali eu entendi minhas dificuldades, compreendi minhas limitações pra poder crescer diante delas e superar. Louvada seja a pessoa que criou esse espaço, porque assim como eu, tenho certeza que muitos outros também aproveitaram essa oportunidade pra poder crescer profissionalmente. Quando você está no processo de produção, você pode trocar inúmeras experiências e conhecer o que cada um entende por história apreciável. Isso também faz com que você haja de forma arbitrária em certos pontos, porque o roteirista que quiser agradar a todos não sobrevive uma semana nesse meio. O roteirista que não aceita a opinião dos outros, também não sobrevive uma semana nesse meio. O fundamental é ter, portanto, um meio termo. Hoje tem a experiência de vinte Casos e Causos, e com uma grande experiência em esquetes de humor. Escrevi comédia, terror, drama e suspense. Escrevi e acompanhei a produção em todos os momentos. E assisti a todos mais de vinte vezes antes de ir para o ar, e depois mais umas vinte vezes na internet. Sempre estudando e criticando a mim mesmo, afinal de contas, não posso acreditar que vou produzir uma narrativa perfeita, pelo menos antes dos oitenta anos.
11) O que quer deixar registrado aqui?
A profissão de roteirista não é uma profissão glamorosa… Você não será reconhecido na rua como o autor daquele filme ou daquele programa de televisão. Ser roteirista é compreender que você pode criar um discurso que seja satisfatório pra você e pra quem lhe contrata. Hoje em dia está bastante acessível a oportunidade de trabalho, basta que você mostre seu trabalho nos canais de atuação do roteirista. Quer ser roteirista? Invista em você mesmo. Tenha a consciência de que investir dinheiro com encontros, oficinas, palestras e mesas de debate fazem parte do orçamento de trabalho que o roteirista precisa ter. Entre em contato com produtoras e comece a fazer seu neetworking, porque é dele que vai sair os primeiros trabalhos. Seja consciente de que nada cai do céu, mas tudo pode ser alcançado. Basta disposição e iniciativa.
Equipe de redação da Muitas Letras.
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18/03/2011 às 16:08
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