As novas regras ortográficas também valem para o braile

Publicado 14/01/2012 por muitasletras
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O sistema braile de leitura e escrita para cegos foi criado em 1837 por Louis Braille, que se inspirou no sistema de Barbier, utilizado para a comunicação noturna entre os soldados do exército francês. Baseado na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas, o sistema braile permite a formação de 63 caracteres diferentes, que representam as letras do alfabeto, os números, a simbologia aritmética, a musicografia e a informática. Esse sistema se adapta à leitura tátil, pois os pontos em relevos devem obedecer a medidas-padrão, e a dimensão da cela braile (assim é chamado o conjunto dos seis pontos) deve corresponder à unidade de percepção da ponta dos dedos. É simplesmente mágico! O cego sente na ponta dos dedos o mesmo que sentimos quando lemos qualquer texto. Ou seja, o tato, por meio dos dedos, envia informações para o cérebro de uma pessoa cega e ela consegue imaginar tudo o que o vidente percebe com a visão. Essa foi uma grande descoberta, pois o cego adquire conhecimento também por meio do tato. E é o braile que lhe dá esse suporte. Por isso, o cego que lê em braile tem muito mais chances de ser um cidadão ativo na sociedade, ajudando a construir o seu meio, do que aquele que não lê. Um cego analfabeto em braile tem muito mais limitações do que aquele que não é. Ser alfabetizado nesse sistema transforma o cego em um indivíduo mais autônomo, e essa autonomia, consequentemente, dá-lhe mais liberdade. A escrita em braile é uma transcrição da escrita comum. Isso quer dizer que todas as letras que integram o alfabeto comum têm equivalência no sistema de escrita para cegos. Assim sendo, quando a escrita comum é modificada, a do cego também tem de ser. Nesse momento, a escrita comum está passando por um momento de transição, por causa do novo Acordo Ortográfico, que passou a vigorar em janeiro de 2009. Aí começam os ajustes! O braile sofre adaptações de acordo com cada língua. No espanhol, por exemplo, existe a letra “ñ”, inexistente no português. Para essa letra, há uma letra equivalente no braile. Caso ela se modifique na escrita comum é necessário modificá-la também no sistema de escrita para os cegos. É esse o caso das alterações feitas pelo novo Acordo Ortográfico. Assim como para os videntes, essas codificações na língua portuguesa também podem causar um pouco de transtorno para os cegos. Nossos olhos eram “treinados” para ler a palavra ideia, por exemplo, com acento (idéia) e hoje se ressentem ao enxergá-la sem ele. O cego percebe essa alteração por causa da mudança de lugar dos pontinhos salientes nessa palavra, que ele estava acostumado a sentir de outra forma. O mesmo ocorre para o hífen e para os ditongos abertos, que agora não são mais acentuados. A quantidade de caracteres se modifica, causando um desconforto na leitura em braile. Tanto os cegos como os videntes necessitam adaptar-se à nova ortografia. Para o cego, qualquer mudança física é algo que pode lhe causar um pouco de desconforto, por causa da falta de visão. Entretanto, com algumas adaptações, ele se acostumará às novas regras sem grandes transtornos.

Kátia Nascimento
katia@muitasletras.com.br
Mestre em Linguística Aplicada
Muitas Letras – Assessoria Linguística e Espaço Cultural

Entrevista com a Profᵅ Isabela Falcón sobre Contação de Histórias

Publicado 09/08/2011 por muitasletras
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“Busque trazer o novo sem ser burlesco. Desperte neles a emoção, comece partindo daquilo que os interessa para chegar onde deseja. Mostre como é simples chegar no que parece complexo. Mas, sobretudo, seja um leitor voraz porque é por seu conhecimento e paixão que a motivação começa”. Essas são as palavras da Profᵅ Isabela Falcón, responsável pelos projetos de Contação de Histórias da Muitas Letras. Na entrevista ela dá dicas de como o professor deve trabalhar com histórias para, também, desenvolver a concentração dos alunos.

ML: Qual sua opinião sobre o porquê de as pessoas lerem pouco?
Profᵅ Isabela Falcón: A pouca leitura é uma miscelânea de fatores. A falta de incentivo em casa, o processo de aprendizagem da leitura na escola, que ainda é deficiente, e é, sobretudo, o fato de que a leitura não é apresentada de forma lúdica e prazerosa que faz toda a diferença. Precisamos mostrar que leitura não é mecânica.

ML: Ler está relacionado com ouvir?
Profᵅ Isabela Falcón: Com todos os sentidos, sensações, leitura é esse processo incrível de dialogar de diversas formas. Ouvir é um deles e observo que nossos alunos perderam o hábito de ouvir por falta de interesse, por distração, por excesso de informação (estamos diante de um mundo dinâmico com muita informação fácil e superficial). A contação de histórias retoma esse bom hábito de aprender a ouvir.

ML: Qual a importância da Contação de Histórias na formação do leitor?
Profᵅ Isabela Falcón: Toda. Prender a atenção, capacitar a memória, desenvolver a criatividade, trabalhar as múltiplas habilidades corporais, etc. O ressurgimento dessa prática tão antiga é a motivação necessária para que a oralidade abra as portas da leitura e também da escrita unindo todas as linguagens.

ML: O que estamos desenvolvendo no aluno quando contamos histórias?
Profᵅ Isabela Falcón: Fomentamos em nossos alunos a “fome “pela descoberta de novos conhecimentos de mundo.

ML: O que você deixaria como sugestão aos professores em relação a contar histórias a seus alunos?
Profᵅ Isabela Falcón: Busque trazer o novo sem ser burlesco. Desperte neles a emoção, comece partindo daquilo que os interessa para chegar onde deseja. Mostre como é simples chegar no que parece complexo. Mas, sobretudo, seja um leitor voraz porque é por seu conhecimento e paixão que a motivação começa.

Danado de preconceito!

Publicado 30/06/2011 por muitasletras
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“Academia critica livro do MEC que defende erros de português”. (http://migre.me/4zs9C)

Desde que saiu essa matéria no jornal, as pessoas estão me perguntando: Como pode um livro ter erros de concordância? Como é isso de preconceito linguístico? O que você acha? Era só o que faltava você concordar com eles!

Só um pouquinho! É preciso refletir sobre o assunto. Na verdade ninguém defende erro nenhum. A pergunta é outra: como as pessoas falam coloquialmente? Elas falam o que está escrito nas gramáticas normativas? Claro que não, é só observar. As pessoas falam suas variações linguísticas, que aprenderam em casa, que aprenderam na cidade ou região onde vivem. O fato é, o que elas aprenderam é o que está nessas gramáticas? Não. Uma criança aprende a falar sem saber gramática e fala “gramaticalmente” correto. Ora, quem nasceu primeiro, a fala ou a gramática normativa? Simples, as pessoas, primeiro, falaram, para depois vir alguém e resolver teorizar sobre sua fala. Ou seja, alguém criou a gramática normativa depois de tanto ouvir a fala do sujeito. O gramático decodificou a linguagem que já existia. E essa linguagem evolui. Os cientistas da linguagem apenas constatam essa evolução e têm, por obrigação, divulgar isso.

Assim, a ciência comprova, por meio de pesquisas, que há muita variação linguística no Brasil, milhares. Temos variações de todos os tipos. Há muitos dialetos, que é a linguagem que uma determinada comunidade fala. E, além disso, há nosso idioleto, que é a linguagem individual. Ninguém fala como nós falamos. Como seres únicos que somos, ninguém fala igual a nós.

Veja, a diversidade linguística, como qualquer outra diversidade, é tão grande que não seria justo dizer que porque alguém diz poRta (com o “r” retroflexo) está falando “errado”. Sim, por que é isso que as pessoas dizem. E dizem mais, se a pessoa não fala “direito”, ela provavelmente não pensa “direito”. O que é uma atrocidade.

É isso mesmo! Tudo isso um professor de Linguística ouve de seus alunos quando começam o Curso de Letras. É um baque para eles ouvirem que todas as linguagens são certas se o indivíduo se fizer entender. Pois bem, linguagem errada é aquela em que o falante não se faz entender. De acordo com Chomsky nós temos uma gramática internalizada que é igual a de todas as outras pessoas. Não diríamos nunca, nem uma pessoa analfabeta: O caminho menino pelo ia. Sempre diremos: O menino ia pelo caminho. Ou seja, falamos sempre dentro da estrutura sujeito-verbo-predicado e isso é uma construção que está internalizada. Mesmo se dissermos: Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado, como é o exemplo da matéria, a estrutura continua sendo a mesma. O que ocorre, nesse caso, é que a marca da pluralidade cai sobre o artigo OS e, por meio dele, entendemos que são “os livros”. A falta de concordância não muda significado, consequentemente, o falante se fez entender.

Então, com tanta variação linguística, qual é o modo certo de falar? Não há. O que há é o modo adequado de falar. Marcos Bagno, grande linguista brasileiro, afirma, em seu livro: “Preconceito Linguístico, o que é, como se faz”, que a linguagem é como a roupa, não vamos de terno e gravata à praia e nem vamos de biquíni ao trabalho.

Com tanta variação, é claro, tinha que nascer o preconceito linguístico. Não seria mais simples um país com tantas diferenças não ter preconceitos? Certos preconceitos no Brasil chegam a ser ridículos. Preconceito linguístico num país vasto como o nosso, com tantas etnias, é mesmo ridículo. E ainda há pessoas que dizem que não têm preconceitos. Infelizmente têm! E muito!

Nós temos algumas crenças que nos levam ao preconceito. Marcos Bagno as chamou de mitos e os enumerou num total de 8. Um desses mitos é o que diz: “Brasileiro não sabe português, só em Portugal se fala bem português”. Esse mito me parece um dos mais importantes, pois retrata a baixa-estima do brasileiro. Tudo que vem de fora é melhor.

Veja, nós não falamos português de Portugal. Nosso português é brasileiro. As variações que existem aqui, não são as mesmas que existem lá. Nem poderiam ser, pois nossa língua sofre influência dos povos que aqui chegaram e dos indígenas que já estavam aqui quando vieram os portugueses. Cada país tem as suas origens e essas origens é que vão formar a sua língua.

Outro mito: O certo é falar assim porque se escreve assim. Claro que não. A língua falada é uma e a língua escrita é outra. Se o brasileiro tem tanta dificuldade para escrever é porque os obrigam a escrever o que não falam, causando, além de um grande constrangimento, uma confusão que resulta na desistência dessa habilidade, infelizmente.

Nossas escolas deveriam valorizar a riqueza da variação linguística de nossos alunos e não desmotivá-los e insistir com gramáticas descontextualizadas que vão levar, apenas, a um estudo estruturalista, fora de época. Se perguntarmos aos nossos alunos como fica o verbo partir na 1ª pessoa do singular, do pretérito mais-que-perfeito, provavelmente, mesmo aqueles que fizeram 12 anos de escola, não saberão. E por quê? Por que não foi significativo para eles. Ausubel afirma que o aprendizado só acontece quando for significativo para o aluno.

Saber Língua Portuguesa é saber entender a própria língua, não necessariamente, saber a gramática normativa. Para quê um professor de Língua Portuguesa dá aulas de Língua Portuguesa a falante nativo da Língua Portuguesa? Para ensiná-lo a pensar, raciocinar em sua própria língua. E como se faz isso? Levando assuntos relevantes para serem discutidos em aula. Somente na escola os alunos terão a chance de discutir aspectos sociais importantes para seu desenvolvimento como cidadão. E isso quem deve fazer é seu professor de Língua Portuguesa. Isso sim é importante. A gramática normativa vai ser ensinada, caso seja necessário, quando estiver fazendo reflexões e escrevendo sobre os assuntos discutidos em sala de aula. Mas, não pode, de maneira nenhuma, ser o objetivo principal da aula.

Felizmente, sabemos que há professores que trabalham dessa forma, com ótimos resultados. Se são ótimos resultados é porque a metodologia funciona. Mas, há que se ter vontade de mudar, empenho em estudar os vários métodos e humildade para perceber que há falhas no próprio trabalho e na educação, de modo geral. E essas falhas não são porque alguém fala dessa ou daquela forma. Quando ouvimos, como eu ouvi, aluno de faculdade dizer que ele não quer escrever, pois sabe que seu texto é o pior da aula, por que sempre ouviu isso de seus professores, realmente, alguma coisa está errada.

“A escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala”, afirma o texto dos PCNs”. (http://migre.me/4zs9C)

Deixo aqui a reflexão aos professores: se sabemos, como de fato sabemos, português, para quê ensinar Língua Portuguesa a falantes nativos dessa língua? Se deve ensinar a língua ou sobre a língua?

Até a próxima!

Kátia Nascimento
katia@muitasletras.com.br
Mestre em Linguística Aplicada
Muitas Letras – Assessoria Linguística e Espaço Cultural

Leia esse texto também em Sala dos Professores: http://blog.horario.com.br/index.php/2011/05/danado-de-preconceito/

Ser roteirista

Publicado 27/02/2011 por muitasletras
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Rafael Cardoso

Sonho de muito escritor é escrever roteiro para TV, cinema e rádio. Como anda esse mercado no Brasil? O que deve fazer um escritor para se tornar roteirista? Como se dá esse processo? A Muitas Letras traz o roteirista profissional, curitibano, Rafael Cardoso para falar sobre isso.

1) Como é sua vida como roteirista?

Pra quem acha que a vida de roteirista é sensacional, está completamente certo! Ser roteirista é deter o poder de criar e construir a realidade que desejar, e isso é permitido com a organização, a disciplina e a ampliação constante do conhecimento técnico. A vida de roteirista é abdicar de uma série de luxos, porque o roteirista, pra cumprir prazo, precisa de ajuda da família, dos amigos, dos contratantes, dos envolvidos direta ou indiretamente. Roteirista não tem fim de semana ou livro ponto pra assinar, mas tem responsabilidade sobre o que escreve e os resultados que este trabalho acarreta.

2) É o roteirista quem determina o programa a ser exibido?

O roteirista é aquele que organiza e desenha a estratégia para alcançar o resultado. Roteiro não é responsabilidade de um ou dois. Vale lembrar que o roteiro é um texto a ser trabalhado por um volume bastante considerável de profissionais. Desde o produtor até o maquiador. Atores, diretores, produtores, investidores, e uma gama de outros –ores fazem o material ser delineado a sua finalidade. Mas o roteirista é aquele que detém da palavra mais importante, por fazer escolhas técnicas cadenciando o ritmo, a forma, a técnica adequada pra se contar determinada história. O roteirista não é o dono de um texto literal, porque o roteiro não é literal. O roteiro é visual, produzido para ser visto e ouvido, portanto, é mais do que a construção de uma metáfora, ou mesmo um verso solto numa folha de papel. Roteiro é a imagem em palavra. E quem deve entender isso é o roteirista.

3) O roteiro se adapta as tendências ou as tendências são tendências por causa dos roteiros?

O roteiro não obedece a uma tendência. Ele é padronizado para que muitas pessoas compreendam o que ali está se exigindo. Se a cena for de uma forma, o roteiro precisa deixar claro como água cristalina para que a produção, o diretor, o produtor entenda qual a finalidade daquela sequência. Claro que o roteiro também é um texto inserido dentro de uma cultura proveniente de uma determinada comunidade. Mas independente do local, do ambiente, se eu ler um roteiro escrito em indiano para se produzir em Bollywood, e depois ler um roteiro em inglês para se produzir em Hollywood, a dinâmica do roteiro precisa ser entendida plenamente. Roteiro não obedece a tendências, ele usa as tendências através da imagem, da cena, do movimento cênico em geral.

4) Há programas de TV que são um verdadeiro lixo em qualidade. Já que ela está fazendo 60 anos, não seria necessário transformá-la?

É preciso entender que a televisão é o reflexo da comunidade. Houve o tempo que eu entendia que era a TV o grande problema de qualidade cultural. A TV, aferida diariamente por audiência, mostra pra gente que quanto mais você agrega qualidade no discurso, mais você está afunilando a audiência. Um BBB, por exemplo, é um programa sem roteiro, mas tem estrutura narrativa em sua edição. É extremamente veiculado ao grande público nacional, enquanto o programa Ação, exibido às sete da manhã do sábado, na Globo, tem uma audiência pífia, mas uma qualidade de discurso sensacional. Outro exemplo disso é o programa Zorra Total exibido no sábado à noite, pela Globo, pobre de qualidade cênica, rico de ingenuidade, erotismo e alienação, mas dá um resultado tão grande de audiência, que está há anos na grade de programação. No entanto, o CQC que é um programa ácido e sarcástico, com o vínculo do jornalismo verdade, mas tem um grande discurso de crueldade, acarreta fraca audiência. O próprio programa FUTURA, totalmente voltado para a cultura e para a qualificação de seu expectador, nunca conseguiu ir além daquilo que há anos já conquistou de espaço no mercado audiovisual. A televisão não é o problema, mas o povo que assiste que precisa ser mais qualificado. Mas a gente também precisa entender que o Brasil tem os piores índices de educação da América Latina, perdendo para países como o Chile e a Argentina em qualificação de ensino. A TV quer audiência, quem precisa exigir qualificação é quem está assistindo e não o contrário.

5) Como pode ser feita essa modificação? A partir do roteirista?

O roteirista pode usar a cultura do povo, mas inserir discursos sutis provocativos, como aconteceu com o Casseta & Planeta no início da carreira de programa de televisão. Eles conseguiam ser tão geniais que até a própria Globo era criticada por eles e nem havia entendimento disso. Através da técnica que o roteirista pode criar múltiplas significações a partir dos elementos que ele coloca na tela através das palavras. Mas não se engane, assim como a televisão, o roteirista precisa ter um discurso que atenda às necessidades do contratante, afinal de contas, todos nós somos exigidos de resultados em nosso cotidiano quando entramos para o universo profissional. Eu já tentei inventar a roda dentro da TV e tive que amargar cobranças terríveis, porque os índices de audiência foram abaixo do esperado. Hoje entendo que posso dar minha contribuição, mas não posso tornar isso o objetivo principal.

6) Você percebe essa necessidade, já que a televisão é formadora de opinião?

A TV assume esse papel político porque o povo não tem uma referência educacional pra evitar isso. Enquanto o povo tiver dificuldades em suas necessidades mais fundamentais, como escolher os representantes políticos, privilegiar o jeitinho brasileiro como valor moral volátil, enquanto a gente tiver um país violento e corrupto, a gente tem que entender que a TV é apenas o reflexo. A mudança não é pela TV, mas pelo povo. A queda de Fernando Collor no movimento dos “caras pintadas” foi em caráter popular. A TV entrou depois nesse movimento e ajudou a consolidar, mas quem tinha interesse nesse assunto era o povo. A TV queria resultado de audiência. Se a TV entender que uma palestra filosófica é mais interessante que a cobertura do desfile das escolas de samba, ela será transmitida, independente da vontade do dono da emissora, do diretor do programa ou do roteirista. Discutir TV está além do papel do roteirista, mas nada impede ele de contribuir positivamente para isso.

7) Você é roteirista profissional. O que tem a dizer para quem deseja ser roteirista?

Já vi roteiristas experientes dizerem que roteirista é uma profissão para velhos. Afinal de contas, pra dominar as técnicas do roteiro, você precisa de uma considerável bagagem no universo da escrita. Essa experiência prepara você inclusive pra lidar com os erros, porque mesmo sendo um grande e consolidado roteirista, não é sempre que se acerta. M. Night Shyamalan, roteirista e diretor do filme O sexto sentido acertou muito com esta obra, já o filme Fim dos Tempos, foi extremamente criticado. Nesse processo de estudo, o roteirista precisa compreender que o roteiro é um texto que será exigido em muitos aspectos de clareza textual, isso só se desenvolve com estudo constante do texto, leituras, discussões, debates, experiência em outras modalidades, posturas, e compreensão de troca de experiências. Eu comecei roteirizando peças de teatro, depois compreendi que precisava estudar e compreender as técnicas… Fiz, portanto, especialização em Dramaturgia e Teatro, mesmo assim, ainda precisava entender mais… E por muitas vezes trabalhei de graça só com o objetivo de adquirir a experiência. Fui para a televisão depois de estudar uma grande série de programas americanos, desde talk shows até seriados e novelas americanas. Fazia comparações com os programas brasileiros. Assisti a muitos filmes americanos, franceses, ingleses e espanhóis, além dos nossos brasileiros. Busquei enxergar em cada obra as especificações técnicas e debati muito com outros colegas de trabalho, diretores e produtores sobre a dinâmica da narrativa. Então o que eu digo pra quem quer virar roteirista: estude a leitura de textos, estude a criação de textos e estude a dinâmica dessas técnicas na prática, seja em oficinas ou mesas de debate. Pra vocês entenderem como é isso. Uma simples conversa pode ser um ato de estudo. Aconteceu comigo. Num dos shows de stand up comedy, que Cláudio Torres Gonzaga fez em Curitiba, foi um momento de aprendizado que tive quando depois desse show, ele veio conversar comigo despretensiosamente em seu momento de descanso. Ali ele me deu informações de sua experiência que compreendi e levo até hoje como elemento de crítica para elaborar ou valorar outros trabalhos, porque compreendi que ele tem muito mais bagagem e experiência do que eu na televisão.

8) Quem quer ser roteirista profissional como deve proceder? Há cursos de roteiros em Curitiba?

Cursos pontuais para roteiristas são poucos. Os cursos de direção de cinema agregam um pouco esse conhecimento. Mas não é o correto, uma vez que o roteiro precisa de uma quantidade de horas superior do que a ofertada nestes cursos de direção. O correto seria ter um curso específico para roteiro, porque o domínio do texto é um processo de especialização contínua. Não dá pra você falar pra pessoa fazer determinada coisa que ela vai sempre ter sucesso. Curitiba é um celeiro de roteiristas que ainda não se descobriu, e o Brasil hoje em dia é muito pobre dessa mão de obra especializada. Você pode conferir isso vendo o número de diretores que precisam escrever seus roteiros pra poder rodar a ideia em cinema ou mesmo televisão. Poucos são aqueles que têm hoje condições de atender às necessidades que o mercado audiovisual tem.

9) Fale da Boa da Pan?

O Boa da Pan foi uma oportunidade que estava latente há anos. O formato do programa nasceu de um jeito, mas como todo programa, ele sofreu suas alterações de acordo com a dinâmica e com as limitações técnicas presentes nessa jornada. O Boa da Pan é um exercício constante de capacidade de comunicação, porque você precisa fazer entretenimento em rádio, onde o único recurso disponível é o som. Não existe a imagem pra fazer melhor o resultado a ser atingido. Mas eu me espelho muito em Dias Gomes, que deixou claro em entrevistas a gratidão que tinha por conta do rádio. Dias Gomes dizia que se ele conseguiu ser claro em sua rádio-novela, então ele conseguia ser claro no audiovisual. Claro que o planejamento diário é fundamental, além das escolhas de pautas, entrevistados, formatação dos quadros produzidos de humor e uma série de outras projeções técnicas. Mas o Boa da Pan é hoje um produto de sucesso porque conquistou um espaço privilegiado dentro de uma rádio de grande importância para Curitiba. Hoje temos audiência aferida em todo o mundo com a disponibilização da internet pra transmitir o programa. Isso quer dizer que podemos entender o roteiro do programa fora das amarras culturais do ambiente. Quando um roteiro consegue isso, é porque ele tem o seu valor técnico atingido. Glauber Gorski, meu grande amigo e companheiro de estudo, me disse uma vez que o roteiro de sucesso é aquele que pode ser produzido com um milhão de reais e também com um real. A qualidade da produção não pode suprir a qualidade do roteiro. O Boa da Pan tem essa diretriz como norteadora de qualidade. É importante ressaltar que os gostos também determinam este sucesso, por isso as técnicas são fundamentais pra minimizar esses impactos de escolhas. Fazer humor é mais desafiador do que qualquer outro gênero, porque se você não conseguir a graça, ela fica ridícula e morre.

10) Você escreveu também para Casos e Causos? Como foi essa experiência?

Foi no Casos e Causos que eu pude realmente crescer. Ali eu tive a oportunidade de me integrar com profissionais de renome nacional e também fazer amigos que se tornaram fundamentais dentro da minha formação profissional. O Casos e Causos foi o ambiente que errei e que tive a oportunidade de acertar. Ali eu entendi minhas dificuldades, compreendi minhas limitações pra poder crescer diante delas e superar. Louvada seja a pessoa que criou esse espaço, porque assim como eu, tenho certeza que muitos outros também aproveitaram essa oportunidade pra poder crescer profissionalmente. Quando você está no processo de produção, você pode trocar inúmeras experiências e conhecer o que cada um entende por história apreciável. Isso também faz com que você haja de forma arbitrária em certos pontos, porque o roteirista que quiser agradar a todos não sobrevive uma semana nesse meio. O roteirista que não aceita a opinião dos outros, também não sobrevive uma semana nesse meio. O fundamental é ter, portanto, um meio termo. Hoje tem a experiência de vinte Casos e Causos, e com uma grande experiência em esquetes de humor. Escrevi comédia, terror, drama e suspense. Escrevi e acompanhei a produção em todos os momentos. E assisti a todos mais de vinte vezes antes de ir para o ar, e depois mais umas vinte vezes na internet. Sempre estudando e criticando a mim mesmo, afinal de contas, não posso acreditar que vou produzir uma narrativa perfeita, pelo menos antes dos oitenta anos.

11) O que quer deixar registrado aqui?

A profissão de roteirista não é uma profissão glamorosa… Você não será reconhecido na rua como o autor daquele filme ou daquele programa de televisão. Ser roteirista é compreender que você pode criar um discurso que seja satisfatório pra você e pra quem lhe contrata. Hoje em dia está bastante acessível a oportunidade de trabalho, basta que você mostre seu trabalho nos canais de atuação do roteirista. Quer ser roteirista? Invista em você mesmo. Tenha a consciência de que investir dinheiro com encontros, oficinas, palestras e mesas de debate fazem parte do orçamento de trabalho que o roteirista precisa ter. Entre em contato com produtoras e comece a fazer seu neetworking, porque é dele que vai sair os primeiros trabalhos. Seja consciente de que nada cai do céu, mas tudo pode ser alcançado. Basta disposição e iniciativa.

Equipe de redação da Muitas Letras.

Radio—grafiando a los demiurgos porteños

Publicado 23/11/2010 por muitasletras
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ABSTRACT

Descripción de 3 programas de radio sobre demiurgos musicales porteños.

Producción y locución de Paulo Marcel Coelho Aragão.

DEDICATORIA

Los programas son dedicados a Izabel Portugal. En caliente y perfumada noche de los trópicos, lost in the 80′s, Belém, Pará, me tira granada afectiva de efecto retardado: “esos ridículos enamorados, como lo decía Barthes” y, no satisfecha con las astillas, me muestra “Historias de Cronopios y de Famas”, de Julio Cortázar. Reacciono inmediatamente: quiero vivir eso. Champán magistral, inaugura viaje, vía regia, llevándome siempre más allá, “aquém do eu, além do outro”.

Borges dice, en el prólogo de “El jardín de los senderos que se bifurcan”: “El narrador [...] indaga si en B influyen A o C; en El Acercamiento a Almotásin, presiente o adivina a través de B la remotísima existencia de Z, a quien B no conoce”. Ahorro tal laburo a los oyentes, nombro Bel, evoco aquella noche de los trópicos, presento mis demiurgos.

Mi deuda contigo, Bel, la guardo en la mochila de mi karma: la quito en módicos pagos, Eternidad adentro.

MOTIVACIÓN

El principal producto de exportación de Buenos Aires es el demiurgo, el creador de universos. Ejemplos obvios: Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Macedonio Fernández, Xul Solar, Astor Piazzolla, Homero Manzi, Enrique Santos  Discépolo, El “Cuchi” Leguizamón, ¡¿como olvidarse del “Cuchi”, dioses mios?! Cada uno crea su esfera, universo cerrado, regido por rigurosamente delirantes leyes internas. Yo digo, cualquiera de ellos podría haber dicho, Borges ya lo decía, lo que pensamos y escribimos no nos pertenece, y sí al Universo, yo digo: la Argentina es una ficción creada por los porteños para llenar sus horas de ocio.

En sociedad fértil en demiurgos, Olimpo Criollo, poco cuesta perder la visión del panteón, ofuscarse por demiurgos más obvios. Macedonio, demiurgo primevo, dijo: “El Universo o Realidad y yo nacimos en 1º de junio de 1874 y es sencillo añadir que ambos nacimientos ocurrieron cerca de aquí y en una ciudad de Buenos Aires”. Saravá Macedonio: Buenos Aires nace en el verano de 1997, primera visita, viaje afectiva vuelta subte, colectivos, Hotel San Martín — otra de mis tantas casas —, itinerario amoroso que empieza en aquella profética noche de los trópicos. Buenos Aires nace en 1997 y me abduce inmediatamente. Abducido, ocupo las horas de la cárcel explorando el Olimpo Criollo. Vuelvo a Buenos Aires muchas veces. No, nunca más vuelvo: “¿como volver, si nunca me fui?”, ya decía Aníbal Troillo, entrevistado en París.

En Buenos Aires, como le corresponde a un Olimpo, los demiurgos transitan, trafican favores con los mortales. Topo con demiurgos, los catalogo con apasionada paciencia entomológica, establezco linajes, ya inapelablemente seducido por los Divinos insectos. Roland Barthes cultivaba sistemáticamente la postura de “amador”: aquel que ama. Amor es la vía regia de acceso a la cosa: el enamorado quiere conocer el Todo de su objeto amado.

Hincha el panteón. Me alardeo emisario, no rehuso evangelismos. Predico, catequizo, castrado por los tabúes de mi tribu. Hace pocos días, un demiurgo, Gabriel Rivano, me lo agradece lo divulgar de su obra. Ta tarea se impone, inmediata, urgente: es llegada la hora, esparcir la Buena Novedad, congregar mortales, cronopios, famas y esperanzas: entrá en las esferas, but take heed, no way out.

Tarea ciclópica la de seleccionar demiurgos: universos tienden a la entropía, resbalan de jerarquías. Mi elección tiene la arbitrariedad del afecto. Barthes gozaba al frotar la piel de un lenguaje contra otra. Me aplace rozar universos, polifonía de dolores y delicias. “Eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”, Saravá Caetano, Cortázar no se engaña: un niño nace con un cuerpo, un tema con su forma: rocemos el universo de los demiurgos contra los podridos universos de la “porteñidad” y de la “brasilidad”, “o macho adulto branco sempre no comando”. Gozo inevitable, múltiplo,  simultáneo, fertiliza la geografía afectiva de nuestras «Pátrias», «Mátrias», «Frátrias».

¡Saravá Caetano!

Sin más tardanzas, los primeros demiurgos:

Gabriel Rivano

Marcelo Moguilevsky

Barthes siempre lo supo: el enamorado habla por ráfagas de lenguaje. Me cuestadescribir mis demiurgos. Borges acudime: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario”. En Roma, como los romanos, en Buenos Aires, como los demiurgos: postulo que alguien, en otro lugar, ya los inventarió. Aquí, tanteantemente, presento epígrafes:

Gabriel Rivano

- “/que sepa abrir la puerta para ir a jugar”

- El Tango Ludens

- What Thelonious Monk would have been were he born in Buenos Aires, lived in

Palermo Viejo, and were called Gabriel Rivano, a.k.a Saravá Mingus !

- Bandoneón 29 teclas, modelo para armar

- El zen-jardín de las notas que se bifurcan

- Sófocles abandona su bandoneón a Aristófanes

- Mientras machos rascan cojones, el niño juega, tocando

- ¿Yo toco notas o silencios?

Marcelo Moguilevsky

- ¿Y quién dijo que la flauta dulce es instrumento de chiquilinas blanquecitas?

- Headline: Improvisation defects from Jazz to Buenos Aires, tired of centuries of opressive jail, where it quickly unleashes torrid ménage à trois with Argentinian Folclore and Klezmer Music.

- Coltrane dijo todo solo con el tenor y el soprano. Mogui es profeta, sopla en el desierto: “habla en lenguas”: “mi nombre es legión”.

FORMATO

Tres programas, dos dedicados a Gabriel Rivano, uno a Marcelo Moguilevsky, la duración a ser determinada por las restricciones de la radio.

Los programas pueden ser presentados en portugués, castellano o ambas las lenguas, libremente. El tema y el ritmo de cada programa determinará la forma y los lenguajes más adecuados a la presentación.

Naturalmente, el enamorado es la única voz legítima: yo haré la locución de los programas.

RECURSOS

El enamorado es puro discurso, libre, compulsivo: él no espera, él rehúsa, pago. La producción del programa será hecha por mí, sin pago. De la radio, necesitaré infinita paciencia con mi total inexperiencia con el medio radiofónico.

Usaré estrictamente “meus discos e livros e nada mais”. Entrevistas con los demiurgos, visitas a Buenos Aires, Rayuela: recorrido imprevisible.

Gabriel Rivano desciende de a ratos del Olimpo Criollo, me visita, demiurgo 20th Century, en mails (no más en sueños), o furtivas visitas a una de mis casas en Buenos Aires, “Mar Azul”, café en Tucumán x Rodriguez Peña.

Vi y escuché a Marcelo Moguilevsky, improvisando sobre el folclore argentino, en mi primer noche de mi primer día de mi primer viaje a Buenos Aires. El tono bíblico se impone: sobre Mogui edifiqué mi afecto por Buenos Aires. Nuevo viaje a Buenos Aires, nuevo viaje musical con Mogui, abominables espejos paralelos.

Mortal que soy, castrado por el temor al divino, mantuve Mogui distante. Una viejita inglesa, esas de sombrero hundido y paraguas, me arrastra al escenario del Queen Elizabeth Hall, en el West Bank londinense, en brumosa mañana de 2002, para mi primer balbuceo con Mogui. Ya en 2004, canjeamos cajitas de fósforos en el “Club de Los Amigos de La Vaca Profana”, en Buenos Aires, probando que Caetano no es nuestro, es del Universo, y, los antiguos siempre lo supieran, el humo es la vía regia de intercesión entre mortales y demiurgos.

Todos los textos serán sometidos a los demiurgos. Espero que los textos finales sean “nada, nada, nada, do que eu pensava encontrar”, queso aireado, agujereado por crítica implacable.

Material musical a priori (poseo todos estos discos):

- “Tangos y Milongas”, Gabriel Rivano

- “Tango Crash”, Almada & Iannaccone

- “Bach en Buenos Aires”, Gabriel Rivano

- “Porto Seguro”, Gabriel Rivano

- “La Segunda”, Será Una Noche

- “Tradición”, Gabriel Rivano

- “Infierno Porteño”, Gabriel Rivano

- “Mañana Domingo”, Puente Celeste

- “Semitas”, Juan Falú & Marcelo Moguilevsky

- “Basavilbaso”, César Lerner & Marcelo Moguilevsky

- “Folclore Argentino: Improvisaciones”, Juan Falú & Marcelo Moguilevsky

- “Sobreviviente”, Lerner-Moguilevsky Duo

- “Soltando amarras”, Quique Sinesi & Marcelo Moguilevsky

- “El viaje”, Moguilevsky y Los Acústicos

- “Shitl”, Lerner-Moguilevsky Duo

- “Será Una Noche”, Será Una Noche

- “Pasando el Mar”, Puente Celeste

- “Piazzolla en Bandoneón”, Gabriel Rivano

- “Klezmer en Buenos Aires”, Lerner & Moguilevsky

- “Los ojos de la noche”, Gustavo Mozzi

Inevitablemente, también discos otros, de Tango, Folclore y Música Brasilera, para rozar la piel del universo de estos demiurgos.

Por Paulo Marcel Coelho Aragão, tradutor, escritor e colaborador da Muitas Letras.

Gabriel Rivano: playing WITH tango

Publicado 06/11/2010 por muitasletras
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One can play Tango. Astor Piazzolla did. Anibal Troillo did. Leopoldo Frederico did. Many have done, do, and will go on doing. This is what is expected. But you cannot play WITH Tango. This is hallowed ground, protected by taboos, punished by social exclusion. Gabriel Rivano took this risk, all alone, and suffered the consequences. In Rivano’s hands, the bandoneón is no longer a vessel for male affirmation. When Rivano places it on his knees, it’s a child, it’s a toy. Julio Cortázar, one of countless great “porteño” (from Buenos Aires) writers, said that children take their games very seriously, create their own rules — their own Universe — and abide strictly by them. When Rivano plays his toy, the bandoneón, he does it with the rigour and abandon of a
child. He achieves the utmost playfulness within the strictest rules.

Rivano’s music swings between these polarities: structure and playfulness. Tynianov, the Russian constructivist from the 20′s, wrote: “The artistic fact can’t exist outside the submission, the deformation of each and every factor by the constructive factor”. This is Rivano, his method. Rivano inherits the love for structures from his father and the compulsion for playfulness from his mother: he is born into what will become his method, his style: his music is an endless attempt to equate this family polarity, to infuse beauty into and from it. Each of his albums testifies to this struggle.

Rivano walks against Tango mainstream when he refuses its inherent violent and dramatic pathos and insists on being playful. The most direct consequence is:with the exception of a single album (“Tradición”), Rivano records and distributes all his albums independently. Each album will overstep a Tango taboo.

In “Tradición”, he plays the music of his grandfather, Adolfo Pérez Pocholo, a famous bandoneón player from the turn of the 20th century. He creates the most modern sounding music out of the most traditional musical material. Rivano rejects the occidental fallacious musical path: onwards, always, towards
dissolution. He moves in spirals, recovering bits and pieces from the past at each turn, reinvesting them with the harmonic, timbric, rhythmic conquests of his time.

Johann Sebastian Bach straddled the tense line between the sacred and the profane. His music is crucified against these extremes. The bandoneón was crucified against this: it was originally used to replace the organ in poor churches, and also in brothels. Rivano records “Bach en Buenos Aires” and his own polarity structure-playfulness reflects Bach’s and the bandoneón’s
sacred-profane polarity.

Brazilian culture can be summarized by a single word: anthropophagy. Brazilian culture eats and digests all foreign influences. Rivano, as Tinyanov said, submits all his influences to the constructive factor. It couldn’t be helped that Rivano felt so attracted to Brazilian culture and expressed this attraction and affection through a record, entitled “Porto Seguro”.

Piazzolla himself broke with certain streaks of the Tango tradition. He absorbs Bártok and Stravinsky, injecting rhythmic vitality into Tango. He uses Bachian counterpoint, as Heitor Villa-Lobos, in Brazil, also did. But he doesn’t break the ultimate Tango axiom: he still plays as a “porteño” male, he still uses his bandoneón to affirm drama and tragedy. Rivano records “Piazzolla en Bandoneón”
and crosses cultural barbed wire: he doesn’t play Piazzolla: he plays WITH Piazzolla. Tempestuous Piazzolla, fond of hunting sharks, sits on a sand beach and plays with toys. Piazzolla is treated amorously, playfully.

Rivano never had his picture on the cover of his albums. Neither did he record traditional Tango themes, such as “El Choclo” or “El día que me quieras”. Sitting on the sands of Ipanema, the same Brazilian beach immortalized by João Gilberto, Tom Jobim and Vinícius de Moraes, his wife Claudia suggests why not record Tangos and Milongas, the quintessential “porteño” genres. From the sands of Ipanema, with a cover photograph taken by a Norwegian, Rivano continues to cross cultural barbed wire, improvising playfully and rigorously with sacred themes from the Tango repertoire.

As Fernando Pessoa, the great Portuguese poet, was characterized, Rivano is always the same, always different. His polar movement between structure and playfulness repeats, and repeats and repeats, incessantly. This doesn’t change. But each movement produces a different album, another work of beauty, another work of transgression, the transgression of a child that has the guts to say that the King is naked, but the King is so much more beautiful naked…

Por Paulo Marcel Coelho Aragão, escritor, tradutor e colaborador da Muitas Letras.

Canto de invocação ao delírio

Publicado 26/10/2010 por muitasletras
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Esta noite
É a noite da poesia!
Noite em que a lua
Despejará sobre nós o seu brilho
E as estrelas serão nossas cúmplices…

Nessa noite
Os temores serão encarados!
Os desejos externados,
Corpos entregues aos instintos!
E prisioneiros serão livres!

Nessa noite
Todas as vozes serão ouvidas!
Todas as vozes serão uma!
Prantos e gargalhadas,
Brados poderosos!
E o silêncio do cosmos
Irá declamar o poema da vida,
A ópera da alma!

Nessa noite
A Terra irá parar,
Poetas mortos irão ressuscitar!

Nesta noite
Papas e protestantes, druidas e xamãs
sentarão a mesma mesa,
Beberão o mesmo cálice.
E o absinto os absorverá,
E os absorverá num beijo místico.

Venham!
Entrem na taverna da liberdade,
Assistam ao sarau eterno,
Pois, esta noite a aurora descansará.
Porque esta noite…
É a noite da poesia!

Por Janderson Cunha, poeta araponguense e colaborador da Muitas Letras.

Essa poesia foi declamada pelo autor na ocasião do Sarau realizado em Arapongas/PR, no dia 17/10/2010, pelo Grupo Conversa Fiada. Muitas Letras esteve lá dando o maior apoio.

Histórias na sala de aula

Publicado 10/05/2010 por muitasletras
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Contar histórias em sala de aula pode e deve ser o pretexto perfeito para resgatar a atenção e conquistar os alunos mais desinteressados. As narrações são um canal aberto que pode passar da fantasia para a ficção e, até mesmo, caminhar pela dura realidade transitando de maneira suave e contundente. A experiência de ouvir precisa ser levada a sério. Sabemos que, com o excesso de informação e os múltiplos ruídos da vida cotidiana, isso foi desaparecendo num grau tão forte, que não solicitamos mais uma pausa nas conversas paralelas em classe, mais praticamente gritamos e imploramos por silêncio e dependemos dele para avançar com o conteúdo. Perdemos a “pitada mágica” do encantamento na hora de lecionar. Hoje os professores simplesmente “despejam” a matéria que lhes é cobrada e se forem “pegos” contando uma história, periga serem demitidos por não estarem sufocando as sessenta e tantas crianças que, perdidas, não sabem nem o que estão fazendo ali naquele momento. É óbvio que os contos não servem pra cumprir a tarefa de vencer os conteúdos bimestrais, que são relevantes. Contudo os contos são fonte de emoção e aprendizagem, retomam aquela prazerosa maneira de aprender e ensinar criando um vínculo afetivo entre professor e aluno. O docente pode trabalhar de diversas formas, desde solicitar uma leitura em voz alta (quero abrir aqui um parênteses, na minha época nós fazíamos este exercício, atualmente não vejo isso ocorrer mais em sala, aliás, a leitura dos alunos anda péssima!), a incentivar o desenvolvimento de grupos teatrais, valendo-se de música, desenho, dança e todas as formas de expressão corporal. Trabalhar o narrador da história que às vezes torna-se imprescindível e pode ter tantos olhares novos (narrador-personagem, narrador-observador, narrador-consciente), trabalhar os elementos da narrativa (foco narrativo em 1ª e 3ª pessoa, personagem, tempo, espaço e narrador), enfim é um vasto e rico mundo. Engana-se quem pensa que a contação de história limita-se na área de línguas, ledo engano mesmo. Todas as áreas podem e devem valer-se desse instrumento. Em matemática, por exemplo, não posso deixar de lembrar Malba Tahan, pseudônimo de Julio César de Melo e Souza, que merece a mais justa homenagem pelo personagem de Malba Tahan, que abriu as portas do mundo da matemática com suas histórias, como no livro, “O homem que calculava”, ou” Matemática divertida e delirante?”, que são livros simplesmente fantásticos. Então, por que não trazer isso para a sala de aula? Em espanhol temos livros literários que passam por cidades e dão detalhes geográficos interessantíssimos. E aí eu repito, por que não levar isso para sala de aula? Não é impossível,não, e devemos mudar esse pensamento pequeno que tem gerado tanta fraqueza na educação. Somos conscientes que nossa profissão é sim desvalorizada, somos cobrados erroneamente, não há investimentos necessários para que nos aprimoremos, não recebemos nenhum tipo de benefício, não temos plano de carreira, mas não justifica o marasmo e ineficiência que temos visto na educação. Temos vocação, missão e o direito de escolher estar em um ambiente educacional e darmos o melhor do que sabemos fazer tão bem, temos uma sociedade a modificar e a nós mesmos e por que não de maneira lúdica? Certamente vamos nos surpreender com as respostas alcançadas. Sem deixar longe os objetivos de nossas áreas e compromissos educacionais, podemos abraçar essa maneira motivante e novamente inovadora mudando o prisma da aprendizagem.

Por Isabela Falcón Magalhães, Professora, Contadora de Histórias e Escritora da Muitas Letras.

Eu, o poeta e a poesia

Publicado 02/05/2010 por muitasletras
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Confesso, sou um poeta analfabeto!
Não sei a psicologia das palavras,
Não sou cientista da língua.

Dentro desse crânio quebrado,
Não tem um arquivo de prática da gramática.

Mas o estigma me agrada e o verso me envenena.
E pra esse veneno lírico não há antídoto.

E ele pinga, dia e noite, muito e amiúde,
Na minha frágil psique,
Gotas de vícios e, às vezes, alguma de virtude.

Parece esquisito, mas insisto:
Sou um poeta analfabeto.

Mas nessas linhas, nessas letras,
Tento transplantar minha medula lírica.
Sei que sou pota pequeno.

Se uso a caneta
É pra dar luz à letra!
E assim trazer ao mundo o meu mundo.

Meu verso é ansiedade, desespero, precipitação.
Eu me procuro poeta a procura da poesia.

Sou um poeta analfabeto, lamento.
Meu verso no universo.
Não encontrou eco.

Por Janderson Cunha, poeta araponguense e colaborador da Muitas Letras.

Por que contar histórias?

Publicado 26/02/2010 por muitasletras
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Poderíamos divagar infinitamente sobre a pergunta acima… Para mim certamente é a melhor recordação de infância. Minha mãe e meu pai sempre nos contaram histórias.
Naquela época simplesmente era maravilhoso ouvir e imaginar aquilo tudo e claro estar recebendo um momento de carinho e atenção. Hoje sabemos da importância de gesticular, mostrar as expressões faciais, despertar o interesse pela leitura, o respeito ao livro e como manusear corretamente esse grande amigo de muitas aventuras. O livro não é somente o portador de histórias tradicionais é uma das primeiras portas à cultura, é a maneira de sensibilizar através de palavras lidas e ouvidas, é um descortinar de símbolos.
Contar histórias é um universo. Porque as possibilidades são infinitas, não há regras. É, sem dúvida, uma arte popular enriquecedora, uma experiência única para quem conta e para quem ouve. Tudo vai direto à emoção, não há como racionalizar ou fazer de forma mecânica para que não se perca a beleza do momento. Quem conta e quem ouve é livre para interpretar a história, recriá-la e fazer visitas misteriosas com suas experiências de mundo, porque é através delas que se constrói a imaginação. Todos podem e devem aprender a contar histórias, pois fazem parte de nós, a leitura se torna viva, ganha forma, voz, corpo, sorrisos, lágrimas e não pertence a ninguém.
A beleza do conto não está em palavras rebuscadas somente… É bela quando “toca” aqueles que a ouvem, que é capaz de buscar as almas perdidas ou desacordadas. Esse fantástico convite exerce várias funções: troca de ideias e afetividade, observação de si mesmo e do outro, capacidade de memorização, desenvolvimento da leitura e da fala, é um espaço cultural que se constrói com música, teatro, dança, poesia e várias dinâmicas. Eleva a auto-estima, estimula dividir com o outro (das palavras e gestos às dificuldades e verdades) e conforme orientação, auxilia pedagogicamente ensinando ou mostrando pontos que sejam necessários um trabalho maior.
Depois de me divagar tanto o que mais poderia dizer para convencer alguém de que contar e ouvir histórias é maravilhoso? Sim, já sei!
Era uma vez…
Sabe por quê? Por que… “A liberdade se conquista com o exercício da criatividade.”

Por Isabela Falcón Magalhães, Professora e Escritora da Muitas Letras.


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